Não tenho dúvidas sobre a importância da iluminação na vida das pessoas.

Contudo, trabalhando dia-a-dia com iluminação, observo um pouco de exagero na concepção dos projetos. Entendo que tal cenário ocorra por falta de informação relevante, e/ou excesso de informação imprecisa e distorcida, levando as pessoas a privilegiar características irrelevantes, e desprezar outras porventura importantes.

Meu conceito privilegia luz onde for necessário, e presença de sombra em menor ou maior escala. Até porquê, é a ocorrência de sombra que enfatiza a presença da luz, destacando-a. Assim, o excesso de luz é quase tão indesejável quando a falta.

Antes de continuar, quero escrever um pouco sobre a luz, abordando os aspectos mais interessantes. Mas vou começar pelos fundamentos.

 

A Luz

 ‘Para um físico, luz é simplesmente parte do espectro eletromagnético que se estende dos raios cósmicos cujo comprimento de onda é da ordem de fentometros até as ondas de rádio cujo comprimento de onda é da ordem de kilometros”, Boyce 2013.

O que define a luz, contudo, é o intervalo desse espectro que é visível ao ser humano, ou seja, uma pequena parte compreendida entre 380 nanometros e 780 nanometros. A forma como quantificamos e interpretamos a luz dentro desse espectro, é classificada conforme padrões definidos pela CIE (Commission Internationale l´Eclairage), cujos principais indicadores fotométricos são: fluxo luminoso, intensidade luminosa e iluminância.

Em adição, as características de cor da luz são definidas pelo indicador CRI (Color Rendering Índex). Contudo, estudos alternativos estão sendo conduzidos visando estabelecer um indicador com maior precisão, especialmente para novas fontes de luz - dentre elas o LED (Light Emitting Diode).

A combinação do extenso estudo para obtenção de padrões, e a precisão dos aparelhos que capturam as características físicas da luz, nos levariam a pressupor que a luz pode ser ‘medida’ – o que é fundamental para projetos de iluminação. De fato, pelo ponto de vista físico é verdade, e os resultados podem ser precisos. Contudo, dada a complexidade da biologia humana envolvida no sentido da visão, bem como as diferenças individuais que a caracterizam, qualquer padrão de medidas adotado para a visão humana é, inevitavelmente, uma aproximação.

Apesar disso, cabe ressaltar que os estudos que culminaram com os indicadores utilizados para quantificar a luz são os mais precisos, e também os que apresentaram os melhores resultados até os dias atuais, e portanto, permanecem sendo a alternativa de maior eficiência, ainda que eventualmente os resultados não sejam unânimes.


Conclusão

Mesmo o projeto dotado do absoluto rigor às normas técnicas, com critério no levantamento de dados e com precisão nos cálculos, será submetidos ao julgamento de seres humanos, os quais apresentam significativas diferenças no sistema visual (fato biológico).

 

Definições:

Fluxo luminoso:  quantidade total de fluxo de luz  (unidade: lumens)

Intensidade luminosa:  quantidade de fluxo de luz emitida em uma determinada direção  (unidade: candelas)

Iluminância:  quantidade de fluxo luminoso em uma determinada área  (unidade: lux)

CRI: índice de reprodução de cor  (unidade: %)




Referências:

Kevin Chin, http://6degreesoffreedom.co/luminance-vs-illuminance/

Peter Boyce, http://www.lrc.rpi.edu/education/graduateEducation/facultydetails.asp?id=4

CIE, http://www.cie.co.at/



A Visão Humana

Muitos aspectos da visão humana ainda são considerados um mistério e permanecem sendo fruto de exaustivos estudos, contudo é correto afirmar que o que o sistema visual humano envolve o trabalho conjunto dos olhos e do cérebro: o sistema ótico obtém a imagem na retina e processamento da imagem é feito pelo cérebro, que filtra e interpreta a imagem.

O sistema ótico tem a incrível capacidade de se adaptar a diferentes níveis de iluminação, que vão desde a luz do sol ao meio do dia, até a luz das estrelas ou da lua. Contudo, dada a fisiologia humana, com o passar dos anos a sensibilidade da visão é reduzida, em especial para situações de baixo estímulo ótico, tal como no período noturno.

O aspecto fisiológico desta adaptação é facilmente comprovado ao observarmos a pupila. Sob estímulo de luz intensa, a pupila se retrai; já em condições de pouca luz, a pupila se expande, na tentativa de captar toda a luz possível.

Contudo, esta característica incrível da visão humana perde eficácia com o passar dos anos, pois tanto a retração quanto a dilatação da pupila já não atingem toda a sua extensão, devido a perda de elasticidade do conjunto ótico. Daí a importância em se determinar a idade dos frequentadores do local quando da condução de um estudo luminotécnico.


Aspectos Fisiológicos da Visão

A adaptação da retina para a luz ambiente é relativamente rápida, em especial na transição de pouca luz para muita luz. Contudo, na transição de um ambiente com muita luz para outro com pouca luz - por exemplo na entrada de um túnel em um dia de sol - a pupila pode levar cerca de 5 segundos para se adaptar. Este efeito é especialmente indesejado para motoristas, pois aumenta o risco de acidentes. Por esse motivo a iluminação artificial na entrada do túnel deve ser reforçada.

Os olhos fornecem informações fisiológicas que vão além da visão. Uma delas é o ajuste do relógio biológico. O corpo humano recebe dos olhos a informação de luz, alternada em períodos específicos e regulares, criando a distinção entre o dia e a noite. Dessa forma, o relógio interno não apenas controla o ciclo de sono, mas também de uma complexa combinação de hormônios que regulam o corpo humano, entre eles melatonina e cortisol.

É correto afirmar que a alteração do relógio biológico - como por exemplo um operário trabalhar durante a noite - traz efeitos colaterais ao corpo humano, normalmente ocasionando alterações de sono, humor e concentração, e por consequência uma menor qualidade de vida.